Ultrapassando as fronteiras e atingindo o lar.

Artigo publicado na revista CIPA No. 234

Todo trabalho de ergonomia na empresa tem seu início nas atividades laborais e sua efetividade é alcançada quando atinge o lar dos indivíduos.

Pode ocorrer em programas de prevenção que apesar de todo o esforço despendido dentro da empresa, ainda há funcionários mantendo problemas.

Isso ocorre, pois a ergonomia deve englobar toda a vida das pessoas, sua implantação, apenas na empresa, não garante a totalidade de abrangência do problema.

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Sylvia Volpi

Professora e  Conslutora
de Ergonomia 


Temos que começar pela empresa e em determinado ponto chega o momento de levar a ergonomia à vida plena das pessoas. Esta é uma fase mais avançada do processo.

Quando nosso público alvo tem consciência da eficácia e necessidade da ergonomia no seu dia-a-dia na empresa, ele passa a estar apto para aceitá-la na totalidade. Começa o processo em que, além da vida do funcionário, a ergonomia passa também a influenciar o cotidiano de quem o cerca.

Atingimos, quando ocorre um estágio que considero maravilhoso: a invasão da ergonomia na vida plena dos seres humanos. Este é o ponto em que concluímos que o nosso trabalho vale a pena e pode dar certo.

Quando atingimos o ponto de "invadir com ergonomia" a vida de nossos colaboradores, é necessário que se tome alguns cuidados.

Então como iniciar o processo? É preciso lembrar que nosso lar traz a sensação de segurança e conforto. Nem tanto ! Se pesquisarmos nos departamentos médicos das empresas, verificaremos que é na segunda-feira o dia de maior número de atendimentos, gerados por práticas caseiras nos fins de semana.

São os atletas de domingo, tarefas domésticas que se acumulam por falta de tempo durante a semana, consertos, construções, excursões perigosas, ou seja, uma infinidade de atividades que podem gerar lesões. Por que estamos expostos a tantos riscos em nossa casa ?

Porque não temos consciência de que eles existem. Estamos sujeitos aos riscos a todo o momento, em qualquer lugar ou situação. Mas em casa "baixamos a guarda".

É inconcebível, a nosso ver, que estejamos em perigo em nosso próprio lar ou em nosso lazer.

Devemos lembrar que nossa casa é continuidade de nossas vidas na empresa, e se praticarmos a segurança no trabalho, este conceito deve também se estender ao nosso lar.

E a ergonomia, então, nem se fala !

Pequenas tarefas rotineiras podem gerar de grandes desconfortos e/ou lesões.

Como se prevenir então das tarefas que nos parecem tão inofensivas e que são prejudiciais ou até perigosas ? Nos policiando como fazemos na empresa, estando atento aos riscos, usando o bom senso.

Façamos uma breve análise de uma tarefa simples, entre as muitas que exercemos no lar.

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Fazer café que parece ser uma tarefa fácil, pode se tornar árdua. Basta analisar a sequência de preparação (conteúdo da tarefa).

Primeiro pegamos uma chaleira (cosinha tradicional), que em geral está embaixo da pia soterrada entre armadilhas de panelas e tampas, em que a um mínimo toque desabam, num estrondo irritante, podendo causar acidentes.

Colocamos a água na chaleira, o usual é pia alta ou baixa demais, da mesma forma a torneira, levando a movimentos inadequados dos membros superiores. Torcemos o tronco para levar a chaleira até o fogão, onde todas às vezes lutamos para adivinhar qual o botão correspondente à boca que se quer acender (não tem lógica mesmo).

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Acendendo o fogo, após brilhante demonstração de que ainda somos superiores à vontade dos eletrodomésticos, colocamos a água para ferver.

Vamos até o armário para pegar o coador de papel. O pó de café, com certeza, está em outro armário, lá em cima. A colher, é óbvio, na gaveta embaixo. Chega a hora de colocar o pó, tarefa fácil. Em seguida despejar a água no coador. E lá vem café. Acabou.

Imagine, falta adoçar, e é perfeitamente previsível que o açúcar esteja naquela lata de alumínio, imensa, cheia até a boca, e onde está localizada a lata ?

Sim, sim, em cima do armário e bem lá no alto.

Para pegarmos a lata, precisamos nos equilibrar na ponta dos pés, nos esticarmos mais que homem elástico em seus dias de glória e ... pegamos a lata. Desequilibra de cá, de lá, ufa ! mas a lata não caiu. É, depois de tanta acrobacia para preparar um cafezinho, só tomando um também. Claro, de preferência feito na cafeteira, apesar de não ser o ideal, porém é bem mais prático.

Neste artigo foi demonstrada uma análise de tarefa que pode parecer simples, porém é tão cheia de armadilhas como muitas outras que executamos em nosso dia-a-dia. Portanto, faça do seu lar um lugar seguro. Evite guardar produtos, eletrodomésticos e outros em local de risco, impedindo, assim, lesões na coluna, mãos, braços, pernas... Seu corpo agradece.

Prevenção começa em casa.

  

Webmaker: M. Canton