As dores das LER

Artigo publicado na revista CIPA No. 212

"Meu nome é Sylvia Volpi, eu tenho LER. Tenho LER sim, continuo vivendo e sou muito feliz!".

É assim que começa, como alguém que sofre de alcoolismo, o portador de alguma LER passa a controlar com maior sucesso e conviver com mais facilidade com este problema quando assume de frente que ele existe.

Quando aprende e se conscientiza de suas novas limitações, convivendo com elas de forma eficaz e criativa diminui a carga psíquica e o sofrimento.

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Sylvia Volpi

Professora e  Conslutora
de Ergonomia 


Quem tem problemas de coluna, tem rinite alérgica ou até mesmo usa óculos, adapta-se para conviver com estes problemas, modifica ou até elimina certas práticas de seu dia-a-dia, com as LER  também se age assim.

Ter LER não me faz deficiente e sim "diferente".

Minhas faculdades mentais continuam as mesmas, apenas minhas habilidades físicas é que se modificaram.

Ter LER não é crime, e sim uma conseqüência da falta de informação e por mais absurdo que possa parecer da dedicação extrema ao trabalho ou alguma atividade.

Ora, quem se dedica ao trabalho não pode ser considerado um criminoso. Somos vítimas do trabalho ou de atividades praticadas em condições inadequadas e não carrascos de nós mesmos.

Analisemos o caso de uma mulher que além de trabalhar na empresa também cuida da casa e dos filhos e tem alguma LER.

É tão comum se ouvir nas empresas chefes e encarregados que dizem que a Maria era excelente funcionária, mas que hoje ela é um problema.

Será que alguém parou para pensar como mudou a vida da Maria ? Que sua vida é que se tornou um problema ? Que  se ela tem tanta dificuldade para exercer seu trabalho, que dizer então dos seus afazeres do dia-a-dia, do cuidado com seus filhos ? Como viverá agora a Maria ?

Não "dá para ver" porque ela sente dor. Deve ser corpo mole ... Seus colegas de trabalho que não sentem dor (talvez ainda) dizem que ela está com "frescura".

Quando ela foi ao médico pela primeira vez, podia ser que ele tivesse explicado o que aconteceu e como conviver com isto, mas não foi assim, (o que atualmente ainda é mais provável acontecer) disse que ela tinha "tendinite" e que precisaria ficar sem trabalhar por um tempo.

Então, ela saiu do consultório sem saber o que tinha, porquê tinha e o que é pior: como fazer para não ter mais.

Saiu do consultório de "licença" e foi para casa. Aproveitou que estava de "folga" e começou então a fazer "aquela" faxina que há tempos queria mas não sobrava tempo, aproveitou também para por em dia o crochê e terminar aquela blusa de tricô que estava no começo. O tempo passou e a Maria voltou para o trabalho pior do que saiu e ninguém entende porquê, se ela "estava de licença".

Maria desta vez repousou, mas foi por pouco tempo. O marido ao vê-la "sem fazer nada" dizia: "Eh Maria ! Já não está trabalhando e a casa ainda neste estado ?". A sogra dizia às amigas: "É... a Maria já não é mais a mesma. Era tão dedicada a casa, aos filhos e agora "inventou" uma tal de tendinite e não quer saber de mais nada."

O filho pequeno chora, quer colo"- "Nem para o filho ela dá mais atenção...", comenta a vizinha.

Pressionada "por todos os lados" Maria se esforça, mais uma vez, supera a dor e faz o que "tem que ser feito".

Mas o tempo passa, ela retorna ao trabalho, tem medo de perder o emprego (ela não sabe que tem estabilidade, ninguém vai contar), parece que cada vez está pior, ela reveza o trabalho com idas ao banheiro onde busca um pequeno descanso na tentativa de amenizar a dor. É uma dor estranha, parece que colocaram gelo na pele da gente e aquilo queima. É uma "dor gelada". O movimento é cada vez mais difícil, lento, muito, muito doloroso, só que agora, "dá prá ver", fica inchado, avermelhado.

Não, Maria não acredita e nem é capaz de aceitar que hoje ela tem limitações, muito menos quem está ao seu redor.

Ela, apesar da dor que é constante, tão irritante que chega a enlouquecer, continua. Ela se sente dona de si, nada pode ser mais forte que ela e sua vontade ! Mas Maria piora cada vez mais, com o tempo perdeu o movimento dos braços, hoje não consegue segurar os talheres, nem pentear seus cabelos, escrever, nada, mais nada. Ela já pensou até em suicídio, a dor é muita, lágrimas nem tem mais para chorar.

Hoje ninguém duvidada de suas dores, também nem adianta mais.

É, o problema foi a empresa e não o funcionário, a falta de informação, o não saber o que fazer, pois, se fossem tomadas as devidas precauções, hoje a Maria não estaria assim e provavelmente outras Marias não estariam com o mesmo destino.

Temos de usar imediatamente a prevenção para nunca "sermos um problema" e continuarmos sempre a ser "uma grande solução" para nós mesmos e para nossas empresas.

Maria não sabia o que tinha, se soubesse o que era e como prevenir talvez não tivesse...

Talvez hoje não fizesse parte do grupo (como instituiu o grande colega Dr. Hudson Couto) das Marias das Dores e continuasse no grupo das Marias dos Prazeres.

Prevenção tem que vir do "berço" e continuar ao longo da vida.

Ergonomia tem que se aprender na escola, desde pequeno, para que as gerações futuras não padeçam por ignorância.

Todas as vezes que falo sobre o assunto ouço "ohs!" de admiração, "ohs" de dúvida e até de certo descrédito.

Até que os "ohs" se tornam de fatalidade quando alguém dentro da empresa se depara com o problema.

Ah! É isso que tenho !?! Nem imaginava ...

Me entristece quando ouço de alguém "É você tinha razão..."

Não quero ter razão, quero que se pratique a prevenção !

Parece hipocrisia se falar tanto em ecologia e não preservar o próprio ser humano, e isto, em pleno ano 2000, afinal faltam apenas alguns meses.

Quero que o trabalho dignifique o homem e não o destrua. E tem que ser já !

  

Webmaker: M. Canton